É preciso saber subverter
- Nádia Rocha

- 6 de jan.
- 2 min de leitura

Por aqui, o recesso está acabando. Antes de voltar oficialmente ao modo vida real, nestes últimos dias me dei um presente: ler algo que eu queria há tempos, o livro "Subversivas", da Gisèle Szczyglak.
E não demorou muito para eu pensar: bá… eu já estive aqui. Em várias páginas aliás.
A autora fala das síndromes que as mulheres carregam. E a pergunta que não me saiu da cabeça foi:
quantas síndromes nós acumulamos ao longo da vida sem ao menos nem perceber?
Comportamentos tão normalizados que parecem traço de personalidade.
Mas não são. São condicionamentos.
E talvez a mais cruel de todas seja essa: a vergonha de admitir que somos boas no que fazemos.
Vergonha de dizer que nossas vidas são interessantes.
De reconhecer que crescemos, ocupar espaços, desejar relações mais saudáveis.
De não querer mais carregar o mundo nas costas.
Como se felicidade, tranquilidade e merecimento fossem sempre provisórios.
Como se a qualquer momento alguém pudesse nos chamar de volta para o lugar adequado.
No livro, a autora vai nomeando essas armadilhas internas. E quando algo ganha nome, ganha também a chance de ser "desativado".
Ela fala da SÍNDROME DE ATLAS, aquela sensação constante de que tudo depende de nós. Que se algo falhar, a culpa é nossa. Que precisamos sustentar o mundo, a família, os afetos… mesmo com a coluna emocional em frangalhos.
SÍNDROME DA BOA ALUNA: que nunca acha que fez o suficiente. Que entrega mais, estuda mais, se cobra mais, esperando um reconhecimento que quase nunca chega. Porque a régua sempre se move.
SÍNDROME DA MOÇA SIMPÁTICA: treinada para agradar, evitar conflito, não incomodar, aquela que prefere ser querida a ser verdadeira, mesmo que isso custe a própria voz.
SÍNDROME DA IMPOSTORA: esse fantasma que sussurra que você não pertence, que está ocupando espaço demais, que alguém vai perceber que você “não é tudo isso”.
TRANSPARÊNCIA COMPULSIVA: a ideia de que precisamos explicar tudo, justificar tudo, dizer tudo… como se ter um jardim secreto fosse uma falha de caráter.
MORDAÇA: o silêncio estratégico, o sumiço, o "não opinar", o "não se expor" para sobreviver.
O mais desconcertante é perceber que muitas de nós não carregam uma síndrome só. Carregam várias. Empilhadas, intercaladas, alternadas conforme o ambiente.
E aí vem a parte mais bonita do texto da autora: a subversão não começa gritando, rompendo tudo ou mudando radicalmente de vida.
Ela começa quando você aprende a dizer “não” sem pedir desculpa.
Quando aceita não ser unanimidade.
Quando para de justificar a própria existência.
Quando escolhe ambientes onde não precisa se diminuir para caber.
Talvez o gesto mais subversivo para mulheres 40+ seja este:
PARAR DE PEDIR PERMISSÃO PARA SER QUEM A GENTE É!
Sem culpa, vergonha, sem sensação constante de estar em dívida com o mundo.
E reconhecer isso já é um belo começo!











Comentários